clique para voltar ao site matriz.

Parte II
A Fada e o Contador de Histórias


Sentada à mesa da cozinha da casa dos Johnson, Meridiana ajudava o pai a fazer a lista dos ingredientes que precisavam comprar para a ceia de Natal daquele ano, assim como para os biscoitos caseiros que a menina preparava todos os anos para os amigos. Haviam saído mais cedo, naquele dia, e comprado alguns poucos presentes, mas ainda faltava uma quantidade enorme de afazeres.

A ruivinha preferia assim. Quanto mais se mantivesse ocupada, menos ela pensaria no que aconteceu na festa de Slughorn, entre ela e Lucien.

O estridente som da campainha tomou conta da cozinha, e a menina levantou-se da cadeira, dizendo para o pai:

- Pode deixar que eu atendo.

Eram quase seis horas da tarde, mas o dia já havia cedido lugar à escuridão da noite, devido ao rigoroso inverno. A moça de olhos verdes se perguntava quem poderia estar batendo à porta dos Johnson àquela hora.

Foi com grande surpresa que ela viu a figura pequena da prima, Adhara Ivory, fazendo contraste com dois rapazes mais altos, que a ruiva imediatamente reconheceu como Trowa Barton e Julianus Gauthier.

- Dhara! – Meridiana exclamou, enquanto dava um abraço na morena – Que bom que você veio!

A garota sentiu-se um tanto embaraçada pela demonstração de afeto tão efusiva de Meri, especialmente porque conseguia ouvir o riso discreto de Gauthier atrás de si. Mas esperou até que a ruivinha resolvesse afastar-se de si. O que não demorou para acontecer.

- Venha, vamos entrar. – disse Meri, puxando a prima pela mão e fazendo sinal para que os rapazes a seguissem.

Os quatro caminharam por um pequeno corredor até chegarem a uma aconchegante sala adjunta, onde podia-se ver dois sofás grandes em tom pastel, uma mesinha de centro e uma lareira. Ao fundo, um pequeno pinheiro ainda desnudo prometia se tornar uma bela árvore de Natal

- Podem se sentar, se quiserem. – disse a jovem anfitriã – Vou chamar meu pai na cozinha.

Meridiana abriu a porta próxima, gritando:

- Pai, corre aqui. Você não imagina quem veio nos visitar!

Segundos depois, um homem sorridente surgiu pela porta da cozinha, aproximando-se dos convidados.

- Adhara. Quanto tempo. Como vão as coisas com você?

Ela sorriu de leve.

- Estou bem. Como vai o senhor? – perguntou, educada.

- Estou bem também. Vejo que hoje veio acompanhada. – Nick disse, enquanto observava os dois rapazes com o mesmo sorriso franco e acolhedor que dera para a jovem Ivory.

A sonserina assentiu, como se só então se lembrasse da desconsideração que havia sido não apresentar os rapazes aos seus parentes.

- Estes são Julian Gauthier – começou, apontando para o mais baixo e de cabelos claros – e este é Trowa Barton. – finalizou, se dirigindo ao moreno.

Ambos os rapazes menearam a cabeça ao terem seus nomes mencionados. Mas Julian acabou surpreendendo ao dar um passo a frente e estender a mão para Nick.

- É um prazer conhecer o meu futuro sogro. – declarou ele com o melhor tom cordial que poderia usar.

- Sogro? – o escritor piscou algumas vezes até pousar o olhar na filha, que muito vermelha, tinha uma expressão de genuína surpresa no rosto – Me parece que minha filha me esqueceu de contar esse detalhe quando voltou para casa.

Adhara lançou um olhar discreto a Trowa, como se perguntasse ao primo se ele tinha alguma pista do que estava acontecendo. O grifinório apenas meneou a cabeça ao encontrar o olhar dela, como se garantisse que ela não deveria se preocupar com aquilo.

- Não me admira. Sua filha parece ainda não ter notado a minha existência, apesar de eu admira-la à distância há meses na sala da Grifinória. – respondeu o rapaz, como se aquele fato aparentemente trágico não pudesse abalar suas esperanças.

Meri fitava Gauthier com a boca entreaberta, e as bochechas queimando. Aquele era o tipo de coisa que ela definitivamente não estava esperando quando viu os rapazes junto de Adhara na porta de sua casa. O que a deixava sem graça não era necessariamente o "flerte" de Julianus. Mas a surpresa do fato, e, principalmente a desenvoltura do rapaz em dizer tudo aquilo na frente do pai dela. Embora, também ela não estivesse acostumada com situações como aquela.

Entre um namoro sério e uma paixão platônica mal resolvida, Meridiana quase não se ocupava em se preocupar com uma vida intensamente romântica. Mas, conhecendo a fama de Gauthier, não apenas aquela de Don Juan de Hogwarts, talvez houvesse uma outra explicação para o rompante dele. Não que fosse ruim ser alvo do afeto do rapaz, apesar de sua lendária inconstância amorosa. Só que, a ruiva fora pega tão desprevenida com tudo aquilo que não sabia o que pensar ou como reagir.

- Você está de brincadeira, não está? – ela balbuciou, por fim.

O grifinório virou-se para ruiva com um sorriso franco nos lábios e caminhou até ela.

- Calma, sardenta, foi só uma piada. Respira fundo... – disse, dando palmadinhas no ombro de Meri – Nada para se preocupar. Você é bonitinha, mas eu já estou comprometido. Desculpa por te fazer passar “carão”. – ele terminou tentando segurar o riso ao ver as bochechas escarlates da garota.

- Er... Tudo bem... – a moça respondeu ainda sem graça, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha.

Nicholas veio em socorro da filha dizendo.

- É uma pena, Gauthier. Gostei de você – o escritor brincou – Mas, já que não vou ser sogro tão cedo, acho que poderíamos aproveitar a visita de vocês com um chocolate quente lá na cozinha.

Já parcialmente recomposta, Meridiana disse:

- Será que vocês se importavam de eu roubar a minha prima por uns minutinhos? Quero aproveitar a visita de vocês e já entregar o presente de Natal dela.

- Tudo bem. – Trowa respondeu por todos eles.

Meri não precisou de mais nada para pegar a morena pela mão e puxa-la em direção às escadarias.

Ao ver a moça de olhos azuis subindo os degraus de mãos dadas com a ruivinha, tentando refrear o sorriso que teimava em sair diante de um gracejo qualquer que a grifinória fizera, Barton não pôde conter o pensamento do quanto Adhara havia mudado em questão de poucos meses. Afinal, se no começo daquele ano letivo alguém lhe dissesse que no natal ele estaria namorando com Ivory, ele sem dúvidas deixaria o sujeito falando sozinho, afinal nunca tivera paciência para ficar ouvindo besteiras. Sem dúvidas havia sido uma mudança inesperada, e ele não estava bem certo sobre o que poderia ter desencadeado todo aquele processo... Talvez pequenas coisas ao longo de vários dias, fatos corriqueiros que nenhum deles sequer chegou a notar. Mas de uma coisa estava certo, aquela mudança não havia sido em nada desagradável.

**********

Meridiana se dirigiu à gaveta da escrivaninha, onde deixara o presente da prima devidamente separado, enquanto Adhara esperava, sentada na cama da ruiva.

A grifinória aproximou-se, entregando para a prima um pacote retangular, embrulhado em um papel prata, com um laço azul. Do mesmo azul dos olhos da sonserina.

- Espero que goste, quando vi, sabia que precisava dá-lo para você.

A morena desfez o pacote com cuidado e o que encontrou foi a capa de um livro com uma menininha loira que tentava abrir a fechadura de uma porta coberta de folhagens. No topo, o título dizia: “O Jardim Secreto”. Ela levantou o olhar para Meri.

- Obrigada pelo livro.

- Sempre que penso em Mary Lennox agora, lembro de você. E, bem, o que eu queria é que você tivesse um "final feliz" como o dela. – a ruiva respondeu, sorrindo.

Adhara não pôde deixar de achar as palavras da ruivinha engraçadas. Apesar de se sentir relativamente feliz nos últimos tempos, bem mais do que talvez jamais fora... Algo lhe dava a impressão de que aquele ainda não era o final. Provavelmente porque não havia um lugar para felicidade plena e despreocupada em meio à guerra. Mas principalmente porque ainda haviam coisas a se resolver, e Adhara sabia disso. Haviam coisas demais. No entanto, aquela era uma época festiva e tais pensamentos eram inapropriados.

Ela guardou o livro dentro da bolsa relativamente grande que usava naquele dia, e de lá também tirou outro embrulho quadrangular de papel vermelho com frisos dourados, estendendo-o para a prima.

- Este é o seu presente. – disse a sonserina.

Meridiana abriu o embrulho com cuidado. Aos poucos a figura de uma fada se revelou. Era uma pequena estátua de cristal, não tinha mais que quinze centímetros de altura. Cabelos longos e cacheados como os da ruiva, e asas longas que lembravam uma borboleta. Um brilho de contentamento perpassou pelos olhos verdes da menina. Aquele presente era mais significativo do que a prima talvez pudesse supor.

Meri nunca falara para Adhara sobre o patrono da mãe ou sobre a origem de seu pingente, mas, mesmo assim, a jovem Ivory tivera atenção o suficiente para notar que a grifinória nunca se separava do pingente, e deve ter deduzido a importância daquele símbolo para a ruivinha.

- Obrigada. Eu amei... – Meri respondeu, sorrindo.

A sonserina assentiu, satisfeita por ter acertado no presente, porém não manifestou seus pensamentos. Ela desviou a atenção da ruiva de volta para a sua bolsa, e de lá tirou outro embrulho menor e retangular, embrulhado em papel azul escuro e estendeu-o para a prima da mesma maneira que havia feito antes.

- Este é o presente do Sr. Nicholas. Você pode entregar para ele?

- Seria um prazer. Ele vai ficar feliz, pode ter certeza. – a ruiva respondeu, enquanto depositava o pacote em cima da cama, ao lado da pequena estátua de fada. – Bem, acho melhor irmos para a cozinha aproveitar o chocolate quente.

A morena assentiu e seguiu Meridiana para fora do aposento e pelos corredores e escadaria até a cozinha. Nick já servia o chocolate quente para Trowa e Julian e, pelo que as meninas puderam ouvir de fora, a conversa deles parecia girar em torno de tópicos como Hogwarts e magia, assuntos que afinal sempre interessaram ao escritor.

Nicholas sorriu ao ver as duas meninas paradas no batente na porta e fez sinal para que ambas se aproximassem. Adhara encontrou lugar ao lado de Trowa na bancada da cozinha e Meri foi ajudar o pai com algumas bolachas.

A ruiva aproximou-se dos convidados, estendendo o prato com as bolachas. Gauthier deu uma piscadela para a Meridiana em agradecimento. A grifinória sorriu, mas relaxada com o jeito do rapaz.

- Tem outra fornada saindo. – a voz de Nick se fez ouvir – Será que poderia me ajudar, Adhara?

A morena assentiu e levantou-se para ir auxiliar o escritor.

Nick entregou uma nova bandeja para a sonserina, enquanto dizia, em um tom relativamente mais baixo.

- Na verdade, não era a sua ajuda que eu estava querendo. Queria saber se gostou da foto que te mandei, mas achei que talvez preferisse responder em particular.

Os lábios dela se curvaram discretamente, lembrando-se de quando Meridiana lhe abordou, entusiasmada e sorridente, na entrada de uma aula de Feitiços para lhe entregar o que dizia ser um presente de Nick. Um porta-retrato que servia de suporte para uma foto de dois bebês dormindo juntos, uma ruivinha e outra morena. Meri e Adhara. Aquilo havia acontecido na manhã seguinte ao seu retorno à Hogwarts após a ligeira temporada que passara na casa dos Johnson no início de novembro.

- Eu gostei sim. Obrigada. – respondeu a jovem.

Nicholas sorriu com satisfação ante a resposta. Ele gostava da menina. Não apenas por ela ser filha de Anabelle, nem por ver o modo como a filha apreciava a amizade da prima. Havia alguma coisa em Adhara, talvez o jeito ao mesmo tempo tímido e sério, que fazia com que o escritor gostasse da garota e desejasse a felicidade dela.

- Bem, tenho algumas outras fotos daquela época guardadas aqui em casa. Tem pelo menos uma ou duas de sua mãe, grávida, no dia do batizado de Meri. E mesmo algumas do seu pai. Se te interessar, talvez, quando eu voltar dos Estados Unidos em junho, você possa vir aqui escolher algumas para você.

- Eu gostaria bastante. – disse a moça, uma expressão tranqüila nas feições geralmente imperscrutáveis. Sem dizer mais nada, ela virou-se, caminhando para a mesa com o prato de bolachas.

Nicholas cruzou os braços, observando Adhara sentar-se ao lado de Barton. O rapaz mantinha uma expressão séria, porém serena, enquanto Meridiana ria de alguma coisa que Gauthier havia dito. O escritor não conseguiu refrear um sorriso ao ver aquela cena, que lhe parecia tão certa e perfeita. Eram todos tão jovens quanto ele foi um dia. Tão cheios de sonhos e esperanças. E como o próprio Nick outrora, estavam diante de um futuro incerto graças a uma nova guerra que se descortinava. O escritor não mais se lamentava pelo que perdera, contudo, desejava que aqueles jovens tivessem um destino mais feliz que o dele. Especialmente sua Pimentinha, mas também, a jovem donzela de gelo, como a filha lhe contara certa vez como a prima era conhecida em Hogwarts, mas que naquele momento pareceu a Nick, uma menina como outra qualquer, alguém que apenas queria ser feliz.

Post em conjunto com a Meri.

voltar. | avançar.




  • <body>